Itália, descrita por Felipe Lovison em entrevista ao site Viver na Europa

O portal Viver na Europa inaugura espaço de entrevistas com intercambistas brasileiros que estão vivendo na Europa.

Neste início, o ítalo-brasileiro Felipe Lovison detalha suas experiências, prós, contras e hobbies na Itália.

Casar e passar a lua de mel em Paris. Talvez – talvez não, é certeza – esse seja o sonho de quase todos os casais de namorados ou noivos hoje em dia.

Quem sabe um beijo – e se possível fotografado hein? – aos pés da Torre Eiffel? Passar pela Pont des Arts e deixar um cadeado com o nome do casal? Muitos já estão sonhando aí do outro lado da tela.

Agora o incomum mesmo é ter esse sonho quando se é apenas uma criança.

Pois bem, esse foi o cenário pintado por Felipe Vasconcelos Lovison, de 20 anos, enquanto garoto. “Sempre falava que minha lua de mel seria em Paris, e que iria apenas com minha esposa”, revela.

Pois o garoto conseguiu seu sonho (quer dizer, mais ou menos. Faltou a esposa) e muito mais.

Felipe, o primeiro entrevistado do portal Viver na Europa, é natural de Bauru, no interior de São Paulo, e vive atualmente na região de Forlì (distante 346 quilômetros de Roma). No próximo dia 31 de janeiro, Felipe completa seis meses de vida na Itália e tem muito o que comemorar.

Após um longo tempo de espera, ele passou a ser considerado ítalo-brasileiro depois da conquista da cidadania italiana.

Foram meses “arranhando” na língua, passeando pela Europa (inclusive realizando o sonho de conhecer Paris), passando raiva – “pelo menos era barato” – na Ryanair e, acima de tudo, um aprendizado para a vida. Confira a entrevista completa com Felipe:

VIDA NA EUROPA

Passeio pelo Regent's Park, Londres

Passeio pelo Regent’s Park, Londres

Viver na Europa: Há quanto tempo você mora na Itália?

Felipe: Dia 31 de janeiro vai fazer exatamente 6 meses.

Viver na Europa: E qual sua profissão atualmente no país? Foi complicado achar esse trabalho?

Felipe: Bom, não diria que o que faço é profissão, porém é o sonho de muitos brasileiros. Sou voluntario em um asilo. Por esse trabalho, ganho alimentação, moradia e 100€ por mês, o que ajuda muito na hora de comprar as coisas necessárias que preciso.

O trabalho é um serviço feito através da Igreja Adventista, onde você se inscreve e espera receber o chamado. Algumas pessoas chegam a esperar mais de 18 meses. O meu chamado foi feito em quatro meses.

Viver na Europa: E qual foi o motivo que te levou a se mudar para a Itália? Era um sonho de infância ou estava cansado do Brasil?

Felipe: Eu sempre tive o sonho de visitar a Europa. Sempre falava que minha lua de mel seria em Paris e que iria somente com minha esposa.

Bom, solteiro mesmo eu tive a chance de ir pra Paris, uma cidade simplesmente FANTÁSTICA! Mas sim, era um sonho que sempre tive e o trabalho voluntário me deu essa oportunidade maravilhosa!

Viver na Europa: Como foi a adaptação ao novo país?

Felipe: Olha, pra falar a verdade eu sofri demais por conta do choque cultural.

Eu tinha lido algumas coisas antes de vir pra cá. Eu não fiquei ansioso para vir à Europa, o que se tornou algo bem estranho pois geralmente o sou.

Porém quando cheguei aqui, eu não fiz amizades com facilidade. Não tinha com quem conversar, contar os problemas que passava aqui e isso foi bem complicado.

Cheguei a pensar em desistir. As pessoas não são iguais as do Brasil.

Eu aprendi a amar muito a Itália, mas o povo daqui é frio. Existe um choque cultural quando você chega porque as pessoas pensam diferente. Especialmente no norte do país, por ser a região mais rica. Minha adaptação não foi nada fácil, sofri muito com o choque, mas aprendi a amar.

Aquela pose clássica na Torre de Pisa

Aquela pose clássica na Torre de Pisa

Viver na Europa: E como foi o aprendizado da língua italiana? Quanto tempo você levou para aprender?

Felipe: Olha, eu fiquei muito nervoso quando cheguei, pois entendia uns 10% da língua e não falava absolutamente nada, literalmente.

No começo eu me comunicava com gestos e isso me salvou em várias situações. Hoje vejo que não precisa ter medo da língua.

Em pouco mais de 2 meses, você está falando pra sobreviver, em 4 meses você está mais solto e consegue ter uma conversa de mais de 10 minutos.

Tudo isso, claro, depende do seu estudo, do esforço. Alguns tem mais facilidade, outros menos.

Viver na Europa: Você acha a Itália um país caro? Como é o custo de vida?

Felipe: A Itália hoje está realmente em crise. Muitos brasileiros pensam: Ah, a Itália está em crise, mas é Europa! Sim, é Europa, mas a crise atingiu profundamente esse país. Muitos tiraram a vida devido a isso. O custo de vida era mais baixo antigamente, assim como no Brasil, mas com a crise eu acredito que as coisas ficaram um pouco mais caras.

Viver na Europa: Tem muitos estrangeiros vivendo no país? Você já sofreu ou conhece alguém que tenha sofrido algum tipo de preconceito por ser de outro continente?

Felipe: Tem bastante gente da África na cidade onde moro. Em Roma também encontrei muitas pessoas de lá, além de muitos brasileiros. São pessoas fantásticas e muito prestativas.

Acho que no começo as pessoas se sentem um pouco ameaçada por ter um estrangeiro.

Pensa que ele veio para roubar a vaga dele. Muitas gente já me olhou diferente aqui.

As pessoas ficam sempre de olho quando chega um estrangeiro, mas só no início, depois se tornam bem queridos.

BRASILEIROS

Em visita ao Castel Sant'Angelo, na capital italiana, com o manto da seleção

Em visita ao Castel Sant’Angelo, na capital italiana, com o manto da seleção


Em visita ao Castel Sant’Angelo, na capital italiana, com o manto da

Viver na Europa: Como é a imagem dos brasileiros aí?!

Felipe: Quando se fala em Brasil, as pessoas aqui sempre lembram do futebol, carnaval, floresta, índios, assim como Chico Buarque, entre alguns escritores que fugiram do Brasil nos momentos de ditadura.

Viver na Europa: Do que você sente mais falta e do que não sente falta do Brasil?

Felipe: Eu sinto muita falta do amor dos brasileiros. O povo do Brasil é muito contagiante, eles demonstram alegria. Tanto que na Europa você diferencia facilmente um brasileiro de um europeu, pela forma de falar, conversar, gestos etc. É algo que eu adoro fazer, encontrar brasileiros e falar: OI Brasil!

A saudade da família também é algo até óbvio. Em todo lugar que você for, toda atração turística que você conhecer vai passar pela sua cabeça: “está faltando eles”.

Viver na Europa: Com relação a comida? Prefere o velho arroz e feijão ou a culinária local?

Felipe: Uma coisa que todos diziam que eu iria sentir falta seria da comida brasileira, porém eu não senti falta nem um segundo da comida, principalmente porque amo massas em geral.

Acho que a pizza da minha cidade é melhor que a daqui, mas o macarrão, que aqui é chamado de pasta, é uma coisa de outro mundo. Diferente, mais saboroso.

Aqui cada macarrão tem um nome, enquanto no Brasil você chama tudo de macarrão.

Além disso tem o Gellato, famoso sorvete italiano, que é MARAVILHOSO! É realmente incrível como você toma o sorvete e parece que aquele minuto dura uma eternidade!

Tive a oportunidade de ir naquela que é considerada a melhor sorveteria do mundo em San Gimignano, é como estar no céu.

Arroz e feijão, com aquele bifezinho, obviamente fazem falta mas a pasta italiana os supera.

CULTURA

E não é que ele foi para a Torre Eiffel mes

Viver na Europa: O que você mais gosta em relação a cultura local? E o que menos gosta?

Felipe: As pessoas aqui na Itália respeitam muito o horário. Elas são bastante pontuais e isso é uma característica marcante do italiano.

Obviamente, sempre existe aquela pessoa destoante, que chega bem atrasada, assim como no Brasil também existem as exceções. Os italianos também são apaixonados por antiguidades como o Coliseu, Torre de Pisa e as igrejas fantásticas que existem em todas as cidades!

Amantes de vinho, além de ser o povo mais elegante que já vi. As vezes o tempo está uns 20 graus e todos estão usando cachecol e sobretudo. São exagerados em algumas coisas, porém super elegantes.

Viver na Europa: Tem alguma história/mito/lenda da cultura que você conhece e acha interessante? Qual?

Felipe: A tradição da mitologia romana de Rômulo e Remo, que é conhecida por todos os amantes de história. Em Roma, em todas as partes da cidade, existe uma estátua da loba com 2 crianças. Eu acho bem interessante essa história!

Viver na Europa: Curte a música local? Tem alguma banda/música que recomendaria?

Felipe: Eu gosto muito de músicas italianas. Sempre ouvi Laura Pausini, que pra mim é uma cantora fantástica e também muito conhecida no Brasil. Ela eu recomendo para todos, é uma cantora no estilo romance!

Andrea Bocelli também é impressionante, eu gosto demais da voz dele e também recomendo. Por fim, tem uma banda que eu acho muito legal chamada Zero Assoluto. Escutei algumas músicas, e realmente gostei.

Viver na Europa: Quais são os esportes mais populares do país?

Felipe: O esporte mais popular na Itália é o futebol, depois vem o ciclismo – tem uma corrida bem especial que atravessa o país – e também o boliche, que é bem popular aqui.

Esqui também é muito praticado no inverno, principalmente nas montanhas que fazem fronteira com a Áustria e Suíça.

É um esporte bem famoso por aqui.

Viver na Europa: Em relação a política. Você acha que a população se envolve nisso? Qual sua opinião a respeito?

Felipe: A população se envolve um pouco com a política sim, ainda mais se tratando de Berlusconi e outros políticos que estão sempre nas capas de jornais e revistas.

Aqui pode até existir corrupção, porém ocorre muito por baixo dos panos. O governo italiano, até aqui, tem mostrado resultados, o que faz com que os casos de corrupção acabem abafados.

BALANÇO GERAL

Praia de Étretat, França

Praia de Étretat, França


Na praia de Étretat, na França. Sim, lá você vai para a praia com roupa de frio.

Viver na Europa: Pontos positivos e negativos da Itália.

Felipe: Ponto Positivo: estar na Europa / Ponto Negativo: Pessoas frias.

Viver na Europa: Pensa em um dia voltar ao Brasil?

Felipe: Sim, acho que todos pensam em um dia voltar para o Brasil, porém só pretendo voltar daqui a uns 15, 20 anos, talvez até mais.

Viver na Europa: Você acha que se tornou uma pessoa diferente depois desse tempo morando em outro país?! No que isso te mudou?

Felipe: Muitas mudanças ocorreram. Melhorei muito como pessoa, estou com a mente mais aberta para aceitar opiniões. Além de conhecer outra cultura – e fazer novos amigos – você aprende a viver sem a presença diária dos pais e isso faz bem para seu futuro. Você aprende a se virar.

Viver na Europa: Poderia dar alguma dica ou informação para os que desejam viver na Europa?

Felipe: Aproveite o tempo que você tem – ou o que você não tem – e venha pra Europa. Além de viajar, você vai conhecer outras culturas, outras línguas e vai se apaixonar por um continente totalmente diferente do Brasil.

Se melhor ou pior você que decide. O que digo é que aqui é diferente! Simplesmente aproveite, e venha se divertir.

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Fonte: Viver na Europa


Por Felipe Vasconcelos, entrevistado por Guilherme Cavalcante 19/01/2014

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